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8 de Março de 2008

A Bússola de Ouro

A mega-produção A Bússola de Ouro é muito mais do que uma simples fábula. É um filme com temática forte, abrangente, e até certo ponto polêmico, voltado — apesar dos efeitos especiais e outros chamarizes infantis — para o público adulto.

Dirigido e roteirizado por Chris Wietz, o longa é uma adaptação do livro homônimo do escritor Philip Pullman, que foi rotulado na época em que o escreveu de satanista, ateu, e outros adjetivos que evidenciam o conteúdo pesado da narrativa.

A história de A Bússola de Ouro se passa em universo paralelo ao que vivemos. Neste lugar, as almas das pessoas, ao contrário das nossas, são visíveis e assumem a forma de animais. A cor, tamanhos, gênio e comportamento destes pequenos animais chamados de “dimons”, revelam muito sobre a personalidade de seus donos.

E é neste lugar que vive a garotinha Lyra Belacqua (Dakota Blue Richards). Órfã, acolhida por seu tio-cientista Lord Asriel (Daniel Craig), Lyra estuda na Faculdade/Colégio Jordan, situado na cidade de Oxford, Inglaterra, que é administrado por catedráticos que formam o poderoso Magistério.

Lyra é uma criança inquieta. Sua orfandade talvez explique seu espírito selvagem e aventureiro e sua falta de feminilidade. Sabendo que seu tio iria partir para uma viagem as terras gélidas do Norte para pesquisar uma substância chamada de “Pó”, a garotinha logo se anima em acompanhá-lo. No entanto, Asriel veta a companhia e Lyra fica inconformada.

Em certo jantar no Colégio, surge uma misteriosa Sra. Coulter (Nicole Kidman) que por motivos não esclarecidos convida a garotinha para viajar as terras dos grandes ursos polares. Sem pensar duas vezes Lyra aceita o convite. Antes de partir, a menina é abordada por um dos tutores do colégio e recebe dele uma bússola dourada.

Ao partir para a viagem, a vida de Lyra muda radicalmente e sem possibilidade de volta. Ela descobre as intenções da Sra Coulter e descobre também ter um dom que ninguém mais tem: o de “ler” e “entender” a bússola. Ela é a única pessoa que pode enxergar o que o objeto tem “a dizer” sobre quem quer que seja.

A viagem é repleta de aventuras. Ela descobre novos lugares e novos povos como os gipcios, caubóis, bruxas e lendários ursos polares guerreiros. Junto desta turma Lyra descobre uma trama cruel que coloca em risco o futuro de muitas crianças e cabe a ela e companhia dar um fim ao plano cruel.

O que mais chama atenção no filme são sem sombra de dúvidas os efeitos especiais, com destaque ao grande Urso guerreiro. É de deixar de boca aberta muitos especialista do ramo a perfeição dos movimentos, gestos e expressões do grande Urso. E não por acaso o filme foi premiado com o Oscar este ano na categoria de efeitos especiais.

Tirando isso, o filme sofre com certos problemas. O trabalho de adaptação de roteiro em cima de um livro sempre é complexo, ainda mais para narrativas como a de A Bússola de Ouro. O filme sofre por excessos. Há muitos personagens secundários e grande parte deles tem participação apagada ou são pouco aproveitados. A protagonista, a pequena Dakota Blue, é o centro da trama. Apesar de uma atuação satisfatória, o papel a ela delegado carrega bastante responsabilidade e exige muito mais do que ela pôde dar.

O segundo ponto é o excesso de informações. A trama é complexa, como já foi dito, por mexer com questões religiosas e existenciais. O chamado “Pó” é conhecido pela possibilidade de ligar esse universo de dimons a outros paralelos. Os catedráticos mais conservadores (são membros da Igreja Católica, claramente) não querem que o fenômeno se confirme, pois o fato destruiria as crenças e valores conhecido pelas pessoas (pouca coincidência com nosso mundo....).

Ademais, os seres místicos, dramas existências, tentativas de assassinatos são recorrentes no filme, o que vai a total desacordo com valores de qualquer instituição religiosa.

O filme é uma excelente aventura, que se supera nos efeitos visuais. Porém, a história não tem o mesmo fôlego da produção técnica. Há muitos personagens, muita aventura e muito assunto indigesto tratado ao mesmo tempo. Faltou, talvez, um pouco mais de simplicidade, de objetivo ao longa.

O projeto cinematográfico de A Bússola de Ouro previa uma trilogia. Porém, o desempenho da primeira parte do projeto colocou em xeque a possibilidade da continuidade da saga. Seria uma pena não dar prosseguimento a uma produção como esta. Entre erros e acertos, o filme é bom e as continuações podem com certeza salvar o fraco desempenho comercial do primeiro filme, que conta com a presença de astros como Kidman e Craig.

A Bússola de Ouro é um bom blockbuster de aventura. Digamos que o filme possui um dimon ainda indefinido, imaturo, mas promissor. E quando você leitor acabar de ver o filme faça uma brincadeira bacana: imagine qual animal representaria sua alma. Mas é melhor não contar a ninguém, pois lembre-se bem de que os dimons revelam a fundo quem você é.

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